Assisti ao vídeo do AKA Rasta sobre por que tantos eventos de trap não vão pra frente: cachê caro, público sem grana, alta concorrência, etc. Depois do vídeo, percebi um ponto que ele não citou: a música para show.
Vocês já tentaram ouvir, em uma caixa de som de verdade, o trap que a galera costuma pedir? É assustador. Aqui em casa tenho um monitor de áudio incrível, e é deprimente escutar certas coisas.
Isso me fez notar que muitos artistas não pensam mais em faixas para tocar ao vivo: O uso de certas manobras para gravar fazem com que ao vivo não seja tão legal, sem contar as produções somente otimizadas para o fone de ouvido. Claro que muita gente vai pro estúdio pensa no projeto com orçamento apertado, mas estou falando de produtores de nível médio, com acesso a materiais de qualidade, quem além de não pensarem nas caixas não pensam na própria estética do projeto, economizando muito nos clipes atrapalhando o desenvolvimento da identidade visual do próprio.
Eu adoro ir a shows e, ultimamente, tenho percebido o quanto um show impacta um fã. Ver seu artista favorito em ascensão tocando para milhares de pessoas faz toda a diferença – é um marco na carreira dele e na memória de quem esteve lá.
Mas, no Brasil de hoje, isso tem sido cada vez mais raro. No vídeo, o Rasta aponta vários obstáculos, e a falta de ao menos um projeto voltado para multidões deixa um vazio no currículo dos artistas.
Hoje o BK (Abebe Bikila) está apadrinhando o rapper Fye, que passou boa parte da carreira como produtor, trabalhando com Leall, VND, MC Luanna, Luccas Carlos etc. Uma coisa que notei é que, desde que ele entrou para o selo, tem feito faixas pensadas para o palco – e isso é e vai ser fundamental na trajetória dele.
Quantos rappers vocês conhecem que têm um, vários hits gigantescos, mas acabaram esquecidos? Muitos. Na internet de hoje, quem não é visto logo deixa de ser lembrado, diferente do passado, quando bastava viralizar. O fluxo é tão rápido que o digital sozinho não sustenta mais uma carreira.
Lá fora vários artistas enormes começaram suas carreiras já pensando na identidade visual, temos Tyler, The Creator e Nicki Minaj com múltiplas personalidades, Travis Scott que faz com que seu pessoal mude a cada projeto que sai, como em Rodeo, Astroworld e agora durante Utopia/Circus Maximus, e pouquíssimas exceções como Thug e Future que não mudam muito de um projeto para o outro mas esses 2 nomes são quase que fundadores do gênero. Outro que não costumava fazer grandes alterações na personalidade para performances ao vivo era Playboi Carti que até 2019 vive apenas a vida trap, hoje mesmo criando suas próprias tendencias se encaixa no modelo de: roupas, clipes e shows voltados para estética do próximo projeto ou até mesmo do projeto atual;
Em mercados cada vez mais efêmeros – e numa internet que não perdoa quem some – não basta estourar nas playlists: é preciso construir pontes reais com o público, olho no olho, caixas no talo. Produzir faixas pensando no show não é luxo nem detalhe de mixagem, é condição de sobrevivência.
O Fye, ao focar nesse formato, mostra que adaptar a arte ao palco pode ser o diferencial entre um hit que some em semanas e uma carreira sólida, lembrada por quem esteve lá. Para o trap brasileiro, a lição é clara: o palco não é o fim do processo, é onde tudo começa de novo.