Fugindo um pouco da urgência política e buscando, realmente, dar uma aliviada na enxurrada de informações diretas, lembrei que, de uns anos pra cá, artistas de diversas áreas, como músicos, cineastas, designers, stylists, escritores, entre outros, tem o costume de utilizar o subtexto em suas obras. Uma maneira de se comunicar que talvez pareça estar querendo cair em desuso.

Em resumo, o subtexto é aquilo que dizemos sem a necessidade de deixar explícito que queremos dizer. Um grande exemplo na música, é a faixa "Aquele Abraço" do Gilberto Gil, que de forma bem animada saúda algumas personalidades, cidades e até mesmo movimentos, literalmente mandando abraços, que só parecem alegres, já que a intenção do artista é que percebemos que são abraços de despedida.

Quando digo que o subtexto parece estar caindo em desuso, não acredito que seja porque descobrimos uma maneira melhor de transmitir mensagens. Talvez existam diversas razões para isso, mas duas circunstâncias me chamam especialmente a atenção.

O receptor não se lembra mais como interpretar:

Falando assim é até um pouco ofensivo pra quem lê, mas possivelmente é uma verdade, o tamanho recomendado de um vídeo pra circular bem pela internet é ter entre 15 e 45 segundos, talvez esse consumo constante de conteúdos curtos, que frequentemente entregam suas mensagens de forma imediata, esteja nos tornando menos pacientes com narrativas que exigem atenção, contexto e interpretação.

O senso de urgência:

Consigo perceber também que, geralmente, quando o motivo é nobre e urgente, canais de comunicação, personalidades e os próprios comunicadores, em alguns momentos, evitam o uso do subtexto para criar um alerta mais direto sobre determinada informação.

Percebemos isso atualmente no país. Na reta final do período de propaganda eleitoral, bem próximo ao domingo de eleição, vimos a popularização de uma trend que consistia basicamente em utilizar o subtexto para se posicionar politicamente: "O voto é secreto, mas eu sou...".
Imagem do Post
Com os resultados das eleições ainda em aberto, parte do público de alguns criadores de conteúdo demonstrou insatisfação com esses posicionamentos, alegando que não eram suficientes para convencer alguém de alguma coisa. Dando a entender, novamente, que uma mensagem transmitida por meio do subtexto seria menos impactante do que uma mensagem passada diretamente, sem rodeios.

É curioso pensar nisso que inclusive me contradiz já que nesse exemplo é perceptível que as pessoas entendem o subtexto, mas que dependendo da situação preferem ter a certeza de algo, fazendo ser necessário que uma mensagem as vezes tenha que ser dita utilizando todas as palavras.

Espero que essa nossa habilidade não se perca e que o subtexto não caia realmente em desuso. Sou um grande amante da sensação de conseguir decifrar a verdadeira mensagem daquilo que estou consumindo. Mesmo tentando fugir do clima eleitoreiro, volto no tema desejando também que essa sensação de urgência que estamos vivendo passe logo.