Essa noite tive um sonho horrível, no sonho eu era eu mesmo, novamente crescendo no quintal da minha vó e não recebendo tanto carinho dos meus outros familiares fora do núcleo central da minha família (irmãos da minha avó e seus descendentes que moravam no mesmo quintal). Acontece que no sonho não era só a falta de carinho, eles praticamente me odiavam, era como se eu e meu núcleo estivéssemos sendo nitidamente obrigados a estar sempre por baixo, para que os irmãos da minha avó pudessem se sentir bem porque sempre teriam algum oponente pra se comparar e sair por cima.
Essa história no fictício já me soou bem pesada e difícil de digerir, agora imaginem passar 18 anos vivendo exatamente isso, porém num formato um pouco mais light, como se no sonho eu fosse explicitamente ofendido e na vida real eu "só" recebia olhares esquisitos e escutava cochichos sobre como eu, mesmo aos 5 anos já era um promissor cracudo do Morro do Rosário. De qualquer modo, crescer naquele lugar não foi fácil, da mesma forma que saíam vitoriosos sempre que se comparavam conosco, nós, ou pelo menos eu, se na mesma posição saia sempre perdendo, de muito.
A dor maior dessa "derrota" era saber que minha avó deu literalmente o sangue pelo sucesso dessas pessoas que não conseguiram sequer dar atenção de volta. Mesmo eu saindo fora da ideia de "O Escolhido", é inegável que foi somente quando eu cresci que percebi que todos convites para churrascos e presentes que minha avó recebia, eram para mascarar os gatos feitos na nossa rede elétrica e outras façanhas que eles tinham para nos deixar extremamente parecidos com o magrão dessa imagem:
Mesmo que seja meio cruel da minha parte, hoje eu faço pequenos movimentos iniciais de uma revanche contra essas pessoas, limitados a apenas abrir os olhos de quem ainda está vivo no meu núcleo, mas que já estão causando certo desconforto em quem sempre nos quis por baixo. Espero ansiosamente pelo momento em que vou conseguir fazer algo bem próximo do que a vingança de Earl contra a moça que atrapalhou sua viagem de família no Ep.2 da 4ª temporada de ATLANTA
Cresci nesse cenário de ser "O Escolhido", e te falo que não é muito melhor não. Me escolherem pra salvar a família mas não me ensinaram nem como vou salvar a mim mesmo.
No final, o que é sobra são sempre aquele monte de parentes rescentidos por você ter descoberto como viver sua vida trilhando um caminho próprio, longe das expectativas boas e ruins que te foram delegadas.