Tenho uma tia, Michele, que me ensinou a gostar de pelo menos 50% das coisas de que gosto hoje. Mesmo jovem, ela assumiu um papel de mãe e irmã, num momento em que minha Mãe era a única que conseguia trabalhar para manter nossas barrigas cheias.

Foi essa tia que me apresentou às novelas, às músicas, aos telefones, aos celulares, aos computadores, as GLSs da época, ao mundo fashion e até à internet.

Minha tia sempre deixou claro que ama um estilo de vida luxuoso, com limites. Falo de joias divertidas, uma casa sempre MUITO limpa, comida boa e viagens, muitas viagens.

Traduzindo, ela poderia ser descrita como: Elvira Paixão, de Beleza Fatal; um táxi no Rio de Janeiro em 2012 passando próximo ao DETRAN-RJ da Av. Pres. Vargas; um scarpin Kate - Christian Louboutin; e as primeiras versões das TVs de tela plana.

Essa semana quando escutei “Palpite”, lembrei dos cochilos que a gente tirava a tarde durante a reprise de Por Amor. Depois de alguns segundos pensando nas mudanças que eu tive desde aquela época, percebi que hoje tenho uma vida tão próximas das do sonhos da minha tia de forma tão natural que chega a doer imaginar que, para ela, tudo isso ainda parece tão distante.

Penso nisso como uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que dói perceber que vivo uma realidade ainda tão intangível para familiares tão próximos, sentir isso me motiva a continuar de pé na esperança de que em algum momento eu consiga proporcionar a ela pelo menos uma parcela disso tudo.

No fim, ninguém além de nós mesmos consegue compreender a dor de realizar, como parte de uma rotina comum, aquilo que sempre foi o grande sonho de alguém próximo que talvez nunca tenha a oportunidade realiza-lo.