Viajar sempre me leva para uma aspiro ao labirinto de pensamentos, as vezes melancólicos, sim MELANCÓLICOS. Desde nova minha relação com viagens era muito boa, porque dentro do contexto da adolescência era aquele momento de poder viver outras coisas e sair daquele mundinho, eu amava, odiava voltar para casa, achava muito triste me despedir de toda uma rotina, principalmente quando ia para a casa da minha madrinha que era super cheia de pessoas, alta rotatividade e era uma casa com quintal, então eu tinha muitas possibilidades de passar o tempo: podia ficar dentro de casa, mas também podia ficar na varanda, na laje tomando sol, nos fundos tomando banho de ducha, brincando com o cachorro, o fundo do terreno é aberto para o rio e do outro lado tem outras casas com quintais imensos, as vezes ficava lá imaginando a vida das outras pessoas naquelas enormes casas com seus enormes quintais, passava horas observando e fabulando como seria a minha vida com aquele espaço todo. Além de conviver com muitas mulheres que gostavam de conversar, cozinhar, costurar e se movimentar. Claro, falando assim parece que era apenas coisas boas, mas tinham as coisas ruins também, não poder dormir até tarde e ter que dormir muito cedo, não poder assistir os programas da tv globe e alguns outros que com toda a certeza para a ihasmim de 14 anos eram coisas relevantes, mas perto de tudo, era nada.

Tenho outras memórias de viagens na adolescência, mas essa citada me marca quando trago esse assunto, porque ao retornar para minha casa vinha aquele vazio de tudo que vivi e vi, o rompimento me dava muita melancólia, porque me sentia bem sozinha na rotina do dia a dia, no geral eu gostava e me acostumava.

Saindo um pouco desse cenário, viajar ali na transição para a vida adulta tinha um outro ar, era também melancólico, o pensamento que vinha era: nossa eu vivendo os mesmos dias na minha cidade e o mundo acontecendo; esse horário eu estaria em x lugar e aqui nesse mesmo horário essas coisas tão legais acontecem. Eram pensamentos estilo a grama do vizinho sempre é mais verde e mais perfomática.

Agora vindo para o presente, recentemente passei 10 dias no Rio de Janeiro com meu namorado, foram dez dias de muitas vivências, vi muitas coisas bacanas, mas me percebi adulta quando o pensamento de voltar para casa surgiu na minha mente e eu olhei por outra perspectiva. Eu retornaria, mas não como a mesma eu, como diria o Heráclito o mesmo rio não banha o mesmo corpo duas vezes, eu já não era a mesma. Me senti adulta por querer voltar para casa, voltar para minha rotina, viver as minhas coisinhas que deixei antes de viajar e querer viver a minha vida com tudo aquilo que aprendi. Por ser meu aniversário e 2026 ser um ano de fim de ciclos tive muitos insights sobre a vida, sobre a pessoa que sou hoje e o que quero para meu futuro.

E caralhos, já faz um tempo sinto de coração que meu chão vai se abrir e eu vou cair em um lugar que nunca imaginei, sinto que as coisas vão mudar muito e para além do sentir eu quase rogo a espiritualidade para de fato acontecer, é uma coisa que acredito que vá acontecer e enfim, me sinto tão tranquila, acho que em poucos momentos da minha vida me senti tão tranquila perante um tsunami, e quando nomeio essa escrivivência como "uma frase muda o fim do filme" faz jus ao exato click que tive no Rio:
Eu não quero pegar tudo o que pensei lá e simplesmente jogar fora e voltar para a monotonia, consumir e absorver tanta cultura me fez lembrar de muita coisa e me respondeu muita coisa, o mundo é muito vasto, a vida é uma só e fora de um contexto determinado muitas coisas tem zero relevância, isso me fez pensar em viver a vida de uma forma muito mais leve e poder fazer minhas coisinhas e errar, ser fútil, ver o que cada artista produz e a forma que produz me deu um gás tão grande para fazer novas coisas, tão grande.

Um tempo atrás, uns 2 anos, me sentia uma formiga em tudo o que eu fazia, engraçado, porque sinto que fazia muito mais do que faço hoje, mas me sentia uma pequena formiga fazendo coisas minusculas em mundo de passarinhos que alçam voos altos e estão no chão, nas árvores e nos céus!

Conversando em sessão com a minha psicológa, ela me fez refletir que as formiguinhas fazem muita coisa e são muito fortes, fazendo um pouquinho todos os dias elas constroem seus formigueiros. Enfim, acho que finalmente cheguei um pouco no ponto onde os meus queridos mortos do terreiro me falavam mas eu não tinha dimensão, acho que vou seguir mais meu coração e fazer as coisas, eu quero ser o meio de passagem da vida, o canal que liga a minha mente e o meu corpo as minhas realizações materiais.

**Bem-vindo 23 anos, que chegue com muito movimento, muito axé, que Exu brinque com os meus caminhos e que no mercado da vida eu saiba trocar e brincar. Que a minha boca me leve para bons lugares. Que a minha boca me leve a ocupar lugares. Que meu orí me indique o caminho e que juntos possamos caminhar em mais um ano, que minha mãe lave minha cabeça e meu corpo de todo pensamento hostil, que em meu orí só fertilize as boas sementes, que eu saiba lidar com a luz e a sombra, que ogum me ajude em mais essa guerra interna. Que eu dê passos firmes sem olhar para trás, sem me diminuir e sem me colocar em lugares que não são meus. Asé!**