Em 2004 a realidade era diferente, tão diferente que eu não me lembro nada daquela época, mesmo assim não precisamos de muitas reproduções em Babylon by Gus Vol.1 - Black Alien, pra entender como era o cotidiano de qualquer brasileiro médio naquele período, resumindo era comum e dolorido bem semelhante ao que temos hoje em dia.
A partir daí, desenvolvi dois sentimentos teoricamente opostos: a admiração, que surge da percepção de que poesias da primeira década do século são tão atemporais que ainda hoje é possível se identificar com elas, e a preocupação, que nasce exatamente pelo mesmo motivo.
Começando pela preocupação: me preocupa muito que um álbum cujo tema principal é um país mal estruturado, que aparenta ter como maior objetivo atrapalhar a vida dos mais pobres, ainda tenha versos tão representativos e específicos para os dias de hoje.
Por exemplo, a faixa “U-Informe”, que fala sobre o abuso de poder das autoridades brasileiras daquela época, ao ser ouvida 20 anos depois, faz tanto sentido quanto qualquer rap mal pensado de 2026 que retrate o mesmo problema. Para mim, isso é motivo de preocupação.
E não é somente nessa faixa. “Estilo do Gueto” também tem como tema o comportamento agressivo dos policiais nas comunidades do Rio de Janeiro. Nessa música, Black Alien diz o seguinte: “a polícia sobe aqui, brr, pra matar, brr, pra morrer / pois quem mora por aqui não tem nada a perder”. Ou seja, desde 2004, as comunidades do Rio de Janeiro são tratadas por policiais como cenários de expurgo e descarrego do ódio contra os menos favorecidos.
Também em “América 21”, que traz os problemas globais do nosso planeta, a faixa deixa clara a insatisfação de Gustavo ao perceber que a influência externa em nosso continente traz ameaças culturais e cognitivas a um povo que opta pela alienação em vez da revolta, mesmo ao perceber que está sendo moldado para viver dentro de um sistema que claramente o prejudica.
Por exemplo, a faixa “U-Informe”, que fala sobre o abuso de poder das autoridades brasileiras daquela época, ao ser ouvida 20 anos depois, faz tanto sentido quanto qualquer rap mal pensado de 2026 que retrate o mesmo problema. Para mim, isso é motivo de preocupação.
E não é somente nessa faixa. “Estilo do Gueto” também tem como tema o comportamento agressivo dos policiais nas comunidades do Rio de Janeiro. Nessa música, Black Alien diz o seguinte: “a polícia sobe aqui, brr, pra matar, brr, pra morrer / pois quem mora por aqui não tem nada a perder”. Ou seja, desde 2004, as comunidades do Rio de Janeiro são tratadas por policiais como cenários de expurgo e descarrego do ódio contra os menos favorecidos.
Também em “América 21”, que traz os problemas globais do nosso planeta, a faixa deixa clara a insatisfação de Gustavo ao perceber que a influência externa em nosso continente traz ameaças culturais e cognitivas a um povo que opta pela alienação em vez da revolta, mesmo ao perceber que está sendo moldado para viver dentro de um sistema que claramente o prejudica.
A admiração acaba se transformando em alívio assim que percebo que, em certa proporção, os problemas sociais mostrados pelo álbum estão sendo parcialmente resolvidos. Muitos alienados já buscam se informar, e a desigualdade social ainda é o maior problema do Brasil, mas, desta vez, mais cidadãos têm consciência disso e acesso a caminhos de ascensão, entre diversas outras mudanças comportamentais passivas que muitos de nós tivemos após o lançamento desse álbum.
Não digo que nossos pensamentos evoluíram por causa dele, mas hoje o álbum pode ser utilizado como uma carta para o futuro, servindo como item de comparação.
Não digo que nossos pensamentos evoluíram por causa dele, mas hoje o álbum pode ser utilizado como uma carta para o futuro, servindo como item de comparação.
Somando tudo o que eu disse, deixo uma conclusão meio controversa. Olhando de forma superficial, perceber que 20 anos de luta produziram efeitos supostamente mínimos na sociedade pode, sim, ser desanimador. Mas devemos entender que esses efeitos mínimos ainda são muito melhores do que nada, e isso graças a quem realmente abraça as próprias ideias e as defende, não necessariamente o influenciador digital que posta cinco vídeos por dia elogiando ou criticando algum político, mas aqueles que compartilham e cuidam do povo ao seu redor, de forma ativa ou passiva.
Pode até parecer, de alguma forma, interessante ou rebelde se abster de conversas sobre temas políticos e sociais, mas esse comportamento é justamente o desejado por quem está no controle: nos ver cada vez mais fáceis de manipular.
“A revolução não será televisionada, nem virá pelo rádio.” Ela vem de baixo, vem da massa, nas pequenas e nas grandes coisas. O seu jantar num restaurante chique também pode ser uma forma de revolução, assim como milhões de pessoas seguindo na pipoca do Igor Kannário.
Pode até parecer, de alguma forma, interessante ou rebelde se abster de conversas sobre temas políticos e sociais, mas esse comportamento é justamente o desejado por quem está no controle: nos ver cada vez mais fáceis de manipular.
“A revolução não será televisionada, nem virá pelo rádio.” Ela vem de baixo, vem da massa, nas pequenas e nas grandes coisas. O seu jantar num restaurante chique também pode ser uma forma de revolução, assim como milhões de pessoas seguindo na pipoca do Igor Kannário.