A Dolce & Gabbana novamente apresentou uma coleção problemática.
Em um primeiro momento muita gente pode pensar “eles só estão enaltecendo a cultura deles” mas quando vemos o passado da marca e juntamos os pontos vira algo recorrente.
O ponto aqui não é enaltecer a cultura italiana, o problema é quando ‘a cultura deles’ é apresentada como retrato universal do homem em um cenário global.
Sob o discurso de tradição e valorização cultural há o apagamento quase que deliberado de outras formas de existir.

“The Portrait of Man” foi o conceito e nome escolhido pela D&G para mostrar sua coleção de inverno para essa temporada. A individualidade do homem exaltada aqui é incoerente.
A narração de apresentação do desfile começa com a frase: “Num cenário global cada vez mais marcado pela uniformidade, a Dolce & Gabbana revela o retrato do homem” mas o casting é formado por homens brancos, com rostos caracteristicamente italianos - maxilares marcados e lineares, narizes que remetem a esculturas greco-romanas e cabelos castanhos. A diversidade parece ter ficado longe ou somente na imaginação de Domenico e Stefano mesmo. E quanto aos outros homens?


Em um momento político mundial onde nós sabemos que a moda usa essa linguagem como ditadora de comportamento de massa, deixar essa imagem de homem passar despercebida pela passarela não pode ser algo leviano.
O retorno do conservadorismo é também sustentado pela moda, colocar o homem branco europeu como o “retrato de homem” é assinar um acordo político que sustenta bases de racismo e hegemonia.

Exigir, cobrar e criticar grandes marcas por suas transgressões é, hoje, mais que necessário para que erros do passado não sejam repetidos.
A Moda como suporte desse comportamento autoritário pode não mudar mas pode enfraquecer. Sabendo que essas marcas dependem da visibilidade, comentário e das vendas começamos a fazer, lentamente, com que ela perca um pouco da sua valência onde dói - na imagem e no faturamento.

Quando somos coniventes com essas campanhas, por achar bonito, por não ver maldade, por talvez ter interpretado de uma forma mais “limpa”, nós jogamos o jogo que mantém exatamente esses mesmos rostos do desfile nas posições de poder, tanto dentro da moda quanto na sociedade. Cobrar a diversidade dentro da moda não é mais algo passivo de cota, é estrutura.
O “retrato do homem” mundial não é algo que pode ser framezado, assim como o da mulher. Somos múltiplos, diferentes e é isso que nos torna únicos, assim como o texto de abertura do desfile narrou, só não acompanhou no resto.