Hoje vou falar sobre um tema que é de grande interesse pessoal, mas ao mesmo tempo, pouco discutido na sociedade. Aqui vou abordar três tópicos que regem o mundo em que vivemos: colonização, língua e música.

Para que seja possível compreender meu raciocínio, preciso destrinchar brevemente o contexto social da África Ocidental, especificamente da Nigéria, entre os séculos XV e XIX. Esse período marca a chegada dos europeus ao Delta do Níger, inicialmente com fins comerciais e, posteriormente, colonizatórios. A chegada abrupta dos portugueses e, mais tarde, dos ingleses tornou necessária a emergência de uma língua de contato, já que a Nigéria é o berço de mais de 400 línguas nativas. Dessa necessidade, nasceu um pidgin.

Para quem não está familiarizado com termos linguísticos, os pidgins são línguas de contato criadas em situações de emergência, quando grupos que falam idiomas diferentes precisam se comunicar. Eles costumam surgir em portos marítimos, zonas comerciais ou nas fases iniciais da colonização, funcionando como instrumentos linguísticos improvisados e restritos a determinados contextos. O Pidgin Nigeriano tem como base o inglês, o português, o yorùbá e o igbo (sendo, literalmente, uma mistura de línguas).

Como todos sabem ou podem presumir, a língua é um instrumento vivo, que evolui e resiste ao longo dos séculos. Hoje, o Pidgin Nigeriano não se limita apenas à comunicação básica mas se tornou a língua crioula mais falada do mundo. Cerca de 40 a 75 milhões de pessoas utilizam o Pidgin Nigeriano como segunda língua em todo o território da Nigéria e em comunidades nigerianas no exterior, enquanto entre 3 e 5 milhões o têm como primeira língua. Apesar de sua enorme popularidade, a língua enfrenta diversas desvantagens sociolinguísticas e não possui reconhecimento oficial por parte do governo, sendo frequentemente alvo de preconceito linguístico e subjugada como “bad” ou “broken English”.

Mas o que toda essa história tem a ver com MÚSICA?

Bom, meus amigos, como já diria o senso comum, tudo que é bom vem da África e não seria diferente com a música. A ascensão de gêneros como Afrobeat, Afro-R&B e o hip-hop nigeriano nos últimos anos colocou a Nigéria no centro da indústria musical global, nomes como Wizkid, Burna Boy, Rema, Tems, Ayra Starr, entre muitos outros, se tornaram comuns em hits virais e em colab com artistas já consolidados na mídia e conhecidos no mundo todo como, Beyonce, Drake, Gunna e mais.

E é aí que a coisa fica interessante, pois, esses artistas não só exportam hits mas também exportam a língua. Enquanto o Estado ainda ignora sua relevância, a música prova, na prática, que o pidgin é uma língua viva, funcional e central para a construção da identidade cultural nigeriana.

No fim, quem manda no mundo é a música.